Trinas

Intervenção – Lisboa – 2012

Em pleno centro histórico de Lisboa, um espaço interior residual, de ligação entre sala e cozinha, transforma-se num ápice num foco de conflito. Ele adora pôr musica. Ela torce o nariz pela desordem. Os vizinhos desesperam pelo ruído.

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Um jovem casal muda-se entusiasmado para a sua nova casa no centro de um bairro histórico. A casa, um triplex com acesso directo desde a rua, é a residência desejada desde há muito pelo casal e, em pouco tempo, converte-se também num local frequente de encontro de amigos.

O primeiro andar, com a sua ampla sala de estar, cozinha e varanda sobre a rua, torna-se o centro de todo o bulício. Neste piso, um compartimento de difícil legendagem e de apenas 2,7m por 2,5m, com uma diagonal de circulação que o atravessa, estabelece a comunicação entre a sala e a cozinha e é nele que se vão acumulando, num curto espaço de tempo, as ‘coisas sem lugar’, lançando na desordem o ponto mais concorrido da casa. É nesse mesmo espaço que Ele decide colocar as suas colunas, pratos e mesas de mistura e dar largas a uma das suas paixões: pôr musica!

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Ele gosta, Ela não tanto: a desordem do espaço invadido por objectos perdidos, cabos e cabos avulsos espalhados pelo chão, e uma sucessão de visitas dos vizinhos a horas inoportunas, incomodados pelo ‘barulho’ que emana de tão exíguo espaço, exigem uma resposta ao eminente problema.

É a procura de resolução deste conflito latente, que levou a POLIGONO, dentro de um orçamento tão reduzido quanto possível, a uma resposta assente em três pilares principais:

- A construção de duas mesas de apoio contínuas a ambos lados do espaço, preservando o eixo de comunicação entre cozinha e sala, mas simultaneamente sugerindo duas áreas de estar não conflituosas com o dito eixo. Ambas as mesas  se repetem a uma cota alta, como se de um tecto falso se tratasse.

- A atribuição de uma ‘personalidade’ muito vincada ao compartimento permitindo, desse modo, identificá-lo com mais propriedade e assim melhor induzir quais os programas e ‘objectos perdidos’ que pode ou não aceitar, mediante uma identidade que fosse reconhecida como cozinha quando vista da sala e como sala quando vista da cozinha.

- Contemplar um revestimento acústico nas paredes que impeça a continuação do conflito com os vizinhos.

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Assim, recorremos a madeira de abeto, habitualmente utilizada em cofragem de betão, para a construção dos planos das mesas, suportados por rolos de cartão de plotter que, simultaneamente, servem para dentro deles passarem todos os cabos. Para o isolamento acústico, decidimos recortar umas quantas finas placas de madeira em quadrados de 15×15 (recriando a métrica dos azulejos da cozinha), sobrepusemos esponja com propriedades isoladores do som e, finalmente, forrámo-las com restos de peças de tecidos trazidos por amigos do casal (recriando o conforto e as estampagens dos sofás e almofadas da sala).

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A execução de todo o processo foi levada a cabo pelos próprios amigos que, com o pretexto de um almoço de sábado, foram convidados a trazer as referidas sobras de peças de tecido para finalmente, um por um, ir construindo cada um dos ‘azulejos almofadados’.

A colocação final e distribuição de cada um dos azulejos nas paredes a ambos os lados, efectuada mediante pistola de agrafos, foi também ela da inteira responsabilidade do próprio casal e amigos, consolidando assim, e ainda mais, o sentimento de pertença e de afinidade do casal e amigos pela própria casa.

Sobre as novas mesas foram então colocados os pratos e mesas de mistura, colocou-se a música bem alto, e ficou-se à espera da visita queixosa dos vizinhos que não mais chegou.

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Para mais fotografias da obra, visita o nosso TUMBLR!

Coordenação: POLIGONO Arquitectura e Construção: André Albuquerque, Pedro Snow. Construção: Catarina Ribeiro, Diana Oliveira Barbeito, Filipe Próspero, Gustavo Blanco, Maria da Luz Beja, Manuel Beja, Pureza Ribeiro de Almeida, Vasco Laranjeira, Wilma Fagget. Fotografia: Inês Amorim e POLIGONO Cliente: Gustavo Blanco, Pureza Ribeiro de Almeida.