Roma não se fez num dia

Concurso – Master Plan – Alcorcón – 2011

Um mega plano de urbanização propõe-se construir de uma assentada uma nova cidade de 1.230 hectares. Estamos em Junho de 2011, em pleno crash da ‘borbuja inmobiliaria’ e parece que o ”show must go on”. Supondo que tudo demorará muito mais tempo até algum dia estar construído, fugimos do desenho final duma cidade imaginada, para nos concentrarmos em como deve, a tal cidade, ir crescendo, enquanto não esteja terminada.

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Densidade

Consideramos que o incontido modelo de crescimento e de densificação, vigente em Espanha, chegou ao seu término. Ao macro-plano urbano que se impõe massivamente sobre o território, e que converte solo em dinheiro, damos lugar a um plano que sabe encontrar ou manter o seu biótopo ideal a cada momento, garantindo uma experiência de cidade íntegra, mesmo quando não esteja terminada, que sabe ir gerando e consolidando os seus centros, enquanto se vai consumando o seu crescimento. Um plano que está sempre completo, mesmo quando não está completo. Mais que propor uma densidade desejada, interessa antes saber se a mesma algum dia será alcançada e nesse caso, como. O processo também conta.

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Identidade

O projecto recupera o papel da Cañada* como referente principal da intervenção. Aquele que já era o eixo vertebral de Alcorcón, antes mesmo que esta multiplicasse por dez a sua população.

Convictos que estamos, tanto da força estrutural do seu eixo, como do seu poder de archaeological trace, como do carácter que transmitirá à futura cidade, espelho necessário duma cidade que tanto se projecta no futuro, como o deseja alcançar com imenso respeito pelo seu passado, sua terra e sua própria natureza, convocamos a experiência sensorial de um caminho que ao largo do seu percurso vai sucessivamente atravessando, um atrás do outro, inúmeras parcelas, cada qual destinada à sua plantação agrícola, pastoreio, produção vinícola, riachos, pinhais e montados. Um caminho mutante no seu percurso e no passar das estações do ano.

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Proposta

Propomos a manutenção do Campo existente e, como elemento simbólico dessa pré existência, a Cañada, tal e como é actualmente, e que à medida que a cidade vai crescendo e vai chegando a novas zonas de fronteira com o Campo existente, se deverá ir deixando lugar a hortas e terrenos agrícolas para os vizinhos, entendendo deste modo como Zonas Verdes as classificadas como tal em planeamento urbanístico, bem como as actividades compatíveis de uso agrícola pré-existentes, aquando do início da implantação do plano como, de forma transitória, todos os terrenos imediatamente limítrofes à edificação consolidada e aos eixos.

A Cañada é assim – simultaneamente – a referência principal tanto do passado como do futuro. É o ‘vazio urbano’ / ‘campo assimilado’,  que de uma forma perene e contínua ao longo de toda a execução do plano de actuação, vai construindo uma paisagem global, em volta da qual a Cidade cresce

*Cañada – As cañadas são os antigos caminhos utilizados pelas grandes rotas de transumância de gado em Espanha. Muitas delas são, ainda hoje em dia, usadas para a função que levou à sua criação, e o seu papel histórico está a par das grandes rotas do ouro, da prata ou da antiga rede de estradas romana. O território de projecto era atravessado por uma destas vias pecuárias, sendo que o plano urbanizador apresentado no enunciado simplesmente a ignorava.

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Equipa de projecto: André Albuquerque, Clément Gripoix, Joel Jongwane. Cliente: Europan Association.