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5 portas gravuradas – Lisboa – 2013

Seja na sala de estar, na cozinha, na garagem ou no escritório de cada um, existe sempre um recanto, uma mesa, ou uma qualquer estante desarrumada, que espera do dia – que nunca chega – em que queríamos pôr em ordem ‘toda aquela desarrumação’.

É sempre antes desse desejado dia que, num domingo de manhã os sogros chegam – sem aviso – que uma amiga aparece para jantar – sem aviso – ou que surge uma importante reunião com um novo cliente.

Nesses inevitáveis e recorrentes momentos invade-nos a vergonha e uma frase solta em jeito de desculpa improvisada – Desculpa lá a desarrumação, estava mesmo a tratar disso, mas entra, entra, gosto muito de te ter por cá.

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Porque não temos nas nossas casas, salas e escritórios, um sítio pré-determinado onde esconder toda a  desarrumação? E se não o temos, porque não inventamos um qualquer alçapão, baú, porta mágica detrás da qual esconder o constante turbilhão?

Foi este o caso apresentado à POLIGONO: Um gabinete de advocacia onde atualmente, e para além da necessária mesa de trabalho, pouco ou nada mais cabe devido ao amontoado de documentos, processos, códigos disto e daquilo, leis daqueloutro, livros mil, papéis avulsos, etc.

Um espaço sobrecarregado onde se tornou difícil receber clientes novos (sem a presença dos processos passados) ou olhar para o futuro com vontade (sem atraque do passado vencido).

Quero ‘tapar’ tudo. Mas preciso de tudo.

Quero isto ‘limpo’. Não tenho é tempo de limpar.

Quero começar de novo. Todos os dias.

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O problema era simples e a solução encontrada foi igualmente eficaz: optou-se por manter a anónima estante do escritório, bem como os livros, códigos, processos e toda a desarrumação. Tão pouco foi necessário convencer a cliente a pôr em ordem as suas cartas, na esperança vã que o hábito ou a praxis por imposição do arquitecto, se alterasse.

De forma pragmática, decidiu manter-se toda a parafernália existente, acrescentando simplesmente uma comprida prateleira que permitisse eliminar uma outra estante que entretanto havia surgido e “mascarou-se” tudo com portas de correr em contraplacado de madeira.

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Se é costume dizer-se que cada arquiteto, vê em cada projeto, a oportunidade de fazer um desenho, neste caso os desenhos criados foram cinco. Talvez mais.

O padrão, que veio vestir cada uma das portas, foi gerado a partir de uma sequência de círculos de inspiração árabe e/ou arquimediana, que sucessivamente se intersectam, gerando conforme a distância entre eles, inesperadas e sempre distintas formas.

Finalmente, e ao contrário de um espaço branco e pulcro tão característico do estereótipo de espaço limpo e ordenado, a superfície do contraplacado foi esmaltada em cores pastel, fazendo sobressair com redobrado contraste a gravação do contraplacado mediante baixo-relevo em CNC, no espaço Fablab EDP.

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Foi a 5 de Outubro – dia da República – que das 9 horas da manhã, às 9 horas da noite, a POLIGONO tomou de assalto o gabinete, conferindo ao espaço uma nova leitura, mediante uma intervenção de baixo custo, e de pensamento simples.

O gabinete conquistou o desafogo e a amplitude desejados.

O móvel velho vestiu-se de novo, a lembrar organdim.

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Para mais fotografias da obra, visita o nosso TUMBLR!

Equipa de Arquitectura e Construção: André Albuquerque, Pedro Snow, Marta Leitão, Raquel Dias Ferreira.

Com o apoio de: EDP Fab Lab.

Fotografia: Federica Gervasi.

Cliente: Ana Margarida Barros