Casa de la Luna

Casa partilhada – Madrid – 2010

Uma decisão primeiramente atrevida, e uma ‘molhada de amigos’ envolvidos, foram a chave que supre toda a diferença que medeia entre uma casa abandonada em que ninguém deseja viver, na casa sonhada de onde ninguém quer sair. Esta é a história de uma obra a muitas mãos.

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Madrid, 2010. Um grupo de amigos, na sua maioria arquitectos estrangeiros, encontram-se exaustos de viver em pequenas e desqualificadas casas a peso de ouro de muitos quilates. O desejo de mudança vem acompanhado de um novo panorama de trabalho em que, de dia para dia, as condições se vêm degradando e as perspectivas vão sendo crescentemente desalentadoras. Há menos dinheiro e todos – por antecipação ou por falta de melhor remédio – teremos de, a muito breve trecho, alterar algo sobre a nossa própria vida.

Partilhar casa, entre um grupo de amigos que já partilham a maioria de outras coisas igualmente importantes, parece ser um bom remédio.

A oportunidade surge finalmente numa das mais centrais praças de Madrid, em Novembro de 2009. Num habitual anúncio se alquila, um preço surpreendentemente baixo, desata o alvoroço. A visita ao local revela a crueldade de um apartamento que, sendo ideal para cinco/seis pessoas, havia sido habitado durante anos, por mais de dez desconhecidos sem qualquer relação entre eles, nem qualquer manutenção da casa, nem limpeza, nem pintura, nem nada. Não é uma casa. É apenas um tecto.

Decidimos alugar.

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Foi assim, com um irreprimível desejo de desenhar e construir a própria casa que, dia após dia, cinco pessoas alternaram diariamente o emprego de dia com a obra civil de noite. Seis meses de construção contínua diária, sucedidos de outros trinta meses de melhoramentos, correcção, e adaptação.

A construção – efectiva – da própria casa, o compromisso – efectivo – com os resultados desejados, o assumir – integral – do investimento associado, a avaliação – objectiva – dos benefícios acarretados pelo desenho de cada uma das pequenas ou grandes soluções, a verificação – efectiva – do comportamento das soluções ao longo do tempo e a correcção e melhoramento – contínuo – das soluções propostas.

Uma casa-manifesto de uma casa-processo feita pelas próprias mãos. Como cremos deveriam ser todas.

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Este processo ilustra, de uma forma muito determinante, alguns dos pressupostos mais importantes para a POLIGONO:

- Pessoas primeiro. As casas são muito mais que ‘uma casa’. As casas são gente e são as histórias dessas gentes. Uma casa é tecto mas é também o Espaço de expressão primordial de cada um. Assim, cada espaço tem a sua expressão. O processo é efectivamente ‘desenhado’ pelo cliente. A arquitectura mais do que desenhar é a ferramenta que constrói a comunidade.

- O processo também constrói. O desenho, a obra e o próprio projecto são um processo de tal modo contínuo que, na realidade, uma casa e um projecto nunca acabam. A união e a construção são ademais um processo verdadeiramente entusiasmante de aglutinar vontades e criar consensos. O projecto de arquitectura deveria saber assimilar esta dinâmica de intervenção contínua, e não apenas construir casas brancas para serem limpas e fotografadas no primeiro dia, nem o arquitecto deveria abandonar o cliente à sua sorte, após uma qualquer entrega.

- Todo o projecto surge de uma necessidade real, cuja resolução depende de uma necessidade construtiva, a que a arquitectura pode (ou não) saber dar a resposta adequada. Há um enorme risco de que a arquitectura não saiba responder às ditas necessidades, mas daí – e daí apenas – dependerá ser boa ou má arquitectura. Desta interpretação decorre a absoluta convicção de que a nossa resposta como profissionais, não deverá ser avaliada pela resposta formal, mais ou menos estimulante, mas pelo compromisso de resolução das necessidades enunciadas.

E por um partilhar inequívoco dos riscos e dos benefícios.

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Para mais fotografias da obra, visita o nosso TUMBLR!

Arquitectura e Construção: André Albuquerque, Clément Gripoix, Joel Jongwane. Construção: Alberto Tito, Alejandro Porto, Alex Loehr, Alice Boarini, Almudena Gamarra, Angel Peralta, Anne-Claire Langlais, Beatriz Alberti, Caroline Angot, Cristina Alonso, Diana Plaza, Elena Postigo, Fernando Garcia, Frank Mueller, Gorka Calzada Medina, Inés Higueras, Javier Quinteiro, Jee-HyeJose Antonio Escobedo, Kyle Anderson, Loreto García, Luis Diaz Diaz, Maria Manresa, Mariana Albuquerque, Marina Fernandez, Marta Olarte, Milena Medialdea, Mónica Galiana, Pilar Pulido, Raquel Osa. Pintura decorativa: Mariana Albuquerque. Fotografia: Luis Diaz Diaz.