Casa da avó

Reabilitação de casa – Bustelo, Oliveira de Azeméis – 2008

Uma família viveu durante duas décadas numa pequena casa. Emigrou outras duas décadas, e regressou à terra que os viu nascer, para construir na mesmíssima parcela da antiga casa, uma outra nova, condigna com a sua melhorada situação económica. A origem de tudo – a ‘casa da avó’ -, ficou ao esquecimento até hoje, momento em que o casamento de um dos filhos levanta a oportunidade da sua recuperação.

Feature Image

Oliveira de Azeméis, Ossela, Bustelo. Uma paisagem ancestralmente rural se bem que com fortes relações comerciais com a relativamente vizinha cidade do Porto sofreu, nos últimos 30 anos, uma impressionante melhoria económica e das respectivas condições de vida, sendo que, no entanto, dita melhoria não teve qualquer acompanhamento ao nível urbanístico ou da qualidade do espaço construído. As consequências nefastas deste processo de edificação, anterior a qualquer ensaio disciplinador do território, estão amplamente difundidas pela quase totalidade do território português sendo que, nesta região, a perversão de todo esse modelo é assaz manifesta.

No caso concreto deste enunciado, por entre uma profusão de antigos minifúndios, hoje quase todos urbanos, chegamos à nossa parcela, onde sob uma só cédula urbanística se erguem não uma, mas duas distintas casas sem qualquer relação entre elas.

Após mais de vinte anos nos EUA, onde à imagem de tantos outros jovens da região, os proprietários em tempos emigraram em busca de fortuna, a família decidiu regressar para fundar desta feita a sua própria empresa. Regressaram exactamente à mesma morada, mas construindo numa das partes agrícolas da parcela a sua nova casa e reservando àquela que outrora havia sido a sua casa, o papel de armazém, adega, ruína encantada do seu próprio jardim.

É neste abandonada memória, que uma nova família descendente da anterior, frente à dificuldade de aquisição de casa própria, decide concentrar os seus esforços e revelar os seus sonhos.

A proposta consiste num melhoramento geral das condições de conforto inerentes à habitabilidade das residências modernas, na adaptação do piso de acesso para garagem, em sala multiusos com ‘recanto’ adaptável a eventuais pernoitas de visitas e numa área destinada à arrumação, dentro da moradia, da parafernália de ciclismo do qual o futuro proprietário é acérrimo fã, à integral redistribuição do primeiro piso (à cota com o jardim posterior) com dois quartos, sala, casas de banho e cozinha, à libertação integral do vazio central da casa (onde a cota do telhado é mais elevada) como núcleo referencial de toda a morada, ao redesenho do jardim e, finalmente, ao reforço do isolamento térmico da moradia pelo exterior recorrendo a um sistema de capoto projectado.

A casa caracteriza-se finalmente pelo enorme vazio central onde discorre a escada de articulação entre pisos e para onde dão todas as divisões da casa à excepção da cozinha e das casas de banho; pelo assumir da pedra aparelhada de xisto pré-existente; por um exaustivo trabalho de desenho de móveis in situ (cozinha, roupeiros, paredes-bilioteca, portadas interiores e restauro de chão existente; pelo rasgar de uma enorme porta de correr na sala sobre o jardim tardoz e finalmente pelo carácter multiusos da sala do piso inferior.

A casa da avó, feita agora à medida do neto, sua mulher e futuros filhos.

Equipa: André Albuquerque, Cliente:  Bárbara Albuquerque, Rui Costa Xara